As palavras como pedras. O poema como caminho

07/29/2017

Arvorescer se faz no tempo e eu arvoresci.

Não como coisa natural,

germe de feijão em pelota de algodão

umedecido

em brinquedo de menino

para logo esquecido.

Não...

Arvoresci no desvão da Vida que vira,

num veio estreito,

estalado, esturricado, quase estéril,

em que caí.

Como um engano,

desculpa que se pede por estar errando e errando...

 

Ana de Araujo é atriz, contadora de histórias, diretora, produtora cultural e poeta. Atuando há mais de duas décadas na cena cultural de Franca/SP, Ana tem muito a dizer e a ensinar. Cabe a nós, ter a disposição para ouvir com o corpo atento.

 

Não à toa, seu zine se chama “Escrevo Como Atiro Pedras”. Escrever, aqui, assim como o arvorescer, se faz no tempo. É um processo que acontece porque a vida acontece, surge, nasce, vira. E isso vai além, na poesia de Ana, escrever é um movimento de criação de mundos, de inauguração dos mundos que existem dentro de si mesma e que abarcam a potência múltipla das tantas vozes que a habitam e também daquelas que ela coletou pela sua caminhada, como visto no “Poema Sem Um Fim” ou em “Um Pouco José”.

 

Contudo, não é fácil se manter focado quando se tem tantos mundos dentro de si. Conciliar essas possibilidades é ser capaz de olhar para os dois lados da rua, para perceber que não há rua e, ainda assim, conseguir sair do lugar. Ana faz isso através da sua escolha pela poesia sincera, como ela diz:

 

Quero a poesia pouca,

torta, rouca,

sem graça, mesquinha,

de pé quebrado,

como a minha.

 

E essa escolha é certeira, já que somente a poesia sincera é capaz de nos libertar para a criação sem amarras, sem restrições.

 

Ao optar pela sinceridade, Ana nos mostra também que, além da beleza, a dificuldade de sustentar tal escolha nos ronda constantemente e, por vezes, nos faz andar distraídos, confusos, presos e sufocados. Isso porque a sinceridade nos impele a olhar para nós mesmos e para o mundo que nos cerca. E esse olhar vem carregado com a necessidade de arrumar a casa, seja aquela que há dentro de nós ou aquela que nos abarca enquanto cidadãos.

 

A autora compreende magistralmente o que diz Saramago: Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. Contudo, infelizmente, não é possível que arrumemos tudo que há de errado no mundo. E essa sensação nos faz sentir agoniados e não há palavras que deem conta dessa angústia, como podemos ver em “Um Pouco José”:

 

Sozinha no escuro qual bicho-do-mato em agonia,

Na parede nua me encosto pra pensar,

Persentir a mente que sente

e escoiceia como cavalo bravo

em fugaz galope para onde nem sei,

posto que estou num cercado cerceado.

As palavras não me sedam

e a sede aumenta...

Perpassa e transpassa o silêncio.

 

Sem dúvidas, as palavras de Ana de Araújo são pedras que ela mesma atira para construir uma trilha única e bela através de um ofício que observa e agarra a potência da vida para gerar esta poesia que chega rapidamente as camadas mais profundas da pele. E deixa marcas, assim como pedras atiradas por um estilingue.

 

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| Ficha Técnica |

 

COORDENAÇÃO EDITORIAL E PROJETO GRÁFICO
Victor Prado

 

ASSISTÊNCIA EDITORIAL E REVISÃO
Lígia Sene

 

CAPA E CONTRACAPA
Igor do Vale

 

ARTEFATO EDIÇÕES
1ª ed. - Franca/SP,
Julho de 2017, 24 pg.

 

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