Aos Que Resistem

08/29/2017

 

Todos os dias são dias para visibilizar minorias que de pequenas não possuem nada e isso já é bem perceptível. Não são pequenas na quantidade de pessoas que as compõem, nem no tempo em que se inscrevem na história de nossas sociedades ao longo dos séculos e, definitivamente, não são pequenos ou poucos os sofrimentos infringidos àqueles tratados como marginais e indignos da sociabilidade comum.

 

Interessante pensar, perceber e até contabilizar essas minorias marginalizadas. Enquanto indignos somos um. Somos pretos, pobres, prostitutas, desempregados, deficientes, mães solteiras, pessoas em situação de rua, religiosos de matrizes africanas, gays, lésbicas e etc.

 

Não, não somos poucos! E nos chamar de minoria faz parte dos processos de invisibilização de grupos extremamente resistentes, cujas vozes, sangue, suor e trabalho tudo podem transformar.

 

Hoje, dia 29 de agosto, o Dia da Visibilidade Lésbica, é mais um dia marcado pela resistência de quem não se permite ser apagado de sua própria história, de quem sobrevive à perseguições de toda espécie como: assédio moral, emocional, psicológico e físico em todos os espaços nos quais transitamos. Hoje é mais um dia para dizer não à essa violência que produzimos e reproduzimos cotidianamente. Basta de termos medo de sair de casa ou mesmo de estar em casa, de andar sozinha a qualquer hora do dia, de trabalhar, de demonstrar afeto, basta de ter medo de ser quem somos.

 

O meu amor não é um mal ou uma ameaça, ele é aquilo que deve ser, AMOR! Amar mulheres nunca foi o meu pecado, meu pecado foi achar um dia que deveria matar em mim o amor que me disseram ser errado. Mas o amor não morre, assim como a força dessas ditas minorias jamais morreu ou morrerá. O que morre aos poucos e aos poucos se consome, pois não se pode sustentar para sempre, é o preconceito, o ódio e a intolerância. E para esses, a nossa resistência se estenderá até o fim.

 

Meu Amor

 

Se o meu amor fosse pequeno, se ele fosse vão,
minha vida seria pura e simplesmente tragada pela escuridão.
Se meu amor fosse barreira e não caminho,
ele não seria amor e eu seria um ser sozinho.
Se meu amor vivesse preso ao chão ao invés de solto ao vento,
seria pedra morta e sem alento.
Se ele fosse tudo aquilo que por sorte não é,
não se inflamaria de sonhos, não se aguentaria de pé.
Meu amor que tudo vive a sua maneira
não vê graça onde a fala não é verdadeira
e não vê cor onde existe pressa.
Ele vê, atentamente, a flor que brota no canto da calçada,
sente no peito a dor daquela pequena vida malfadada.
Meu pobre amor sofre pelo que se há de sofrer,
ele sofre por um eterno viver
entre vidas que não se olham e não se sentem,
dentre almas que se ignoram e mentem.
E mesmo como um amor criança
com muito o que crescer,
é um sentimento que se lança
ao próximo alvorecer.
Arrisca no suspiro seguinte
a simplicidade de maior requinte,
arrisca sua própria essência,
pondo-se em riste pela sobrevivência,
lança-se ao mar, põe-se a perder ao mergulhar
encarando a morte para lhe afirmar:
 

- Não hei de morrer em vida,
pois vivo para morrer de amar!

 

(Meu Amor, poema que compõe Blasfêmea, primeiro zine de Ana Teresa Costa Silva, publicado pela Artefato Edições em 26 de Agosto de 2017)

 

 

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